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Lourenço Marques , Xilunguíne - Maputo


Origens da cidade – Parte I

O ponto originário donde a vida local irradiou, foi a Praça sete de Março. Pequeno jardim repousante em plena baixa, a dois passos de tudo, oferecendo ao citadino a graça de um prazer á sombra e á noite uma serenidade fresca. A esplanada circular é um convite para estar com a família ou os amigos. O rápido entardecer ali é doce, e á tarde o sol de chapa e a praça quase deserta, ela mesmo tem um ar de reformado, á sombra num banco com a bengala e o Notícias, a resguardar-se da canícula na quietude, e a ver a vida tumultuosa passar veloz continuamente ao lado.
Pelos regulamentos, não podia haver casas 200 metros em redor, e por isso se deixou ficar ali o terreno vazio, com mato riscado a caminhos de areia. Iam dar duma banda á Fortaleza e sua praia, onde estava a lancha do Estado, e da outra á pequena praia mais a oeste, onde desde séculos, os marítimos locais passavam gente em almadias Ka-Tembe, Ka-Mpfumo (Ka, em ronga, significa para). Entre os dois embarcadoros ficavba a árvore grande da Alfândega, sob a qual funcionava á sombra aquela repartição do Estado, quando chegava algum navio.
Com o fazer-se a vila para leste e oeste, a Praça começou a ser concorrida e teve de ser arranjada, primeiro o mato abatido e depois as ruas feitas á volta. A povoação fizera perder á Fortaleza todo o valor, e quando apareceu a Câmara em 1877, e se cuidaram as primeira ruas, a Praça foi nivelada com entulho e transformada em modesto jardim.
O progresso começava então a chegar a Lourenço Marques, regularmente nos vapores da Union, que vinham de Porto Natal, de modo que se fez uma doca onde se encontra o monumento a António Enes, a sumptuosa casa térrea da Alfândega que ocupava todo o quarteirão dos Estudos Gerais a parecer outra fortaleza, e se montou o gasómetro no topo sul, para as bóias do canal e do porto. De seguida, com o caminho de ferro e a contínua chegada de cargueiros com mercadorias para o Transval, começou a exercer-se, poderosa influência britânica, e a cidade em expansão a levar outra volta. Novas técnicas chegavam, no fundo dos porões, pré-fabricados em ferro e zinco. Era uma nova estética, o coreto ao centro da Praça, os Kioskes vagamente achinesados, edifícios com varandas apoiada em colunas de ferro, com beirais recortados em madeira. Aterrou-se a doca, a praça foi empedrada á portuguesa, ao gosto de Lisboa. Para ser Rossio nem sequer lhe faltaram os eléctricos. E como a cidade alta era toda ela um campo extenso, com ar de arrebalde, semeado de casas dispersas no meio de grandes quintais cercados de arame e de ripas, por entre ruas na maior parte imaginárias e de areia, a cidade descia todos os dias á Praça, de eléctrico, ao ir para as repartições, as lojas e escritóriuos da Baixa, ia ali apanhar outra vez o eléctrico á hora de almoço, tornava pelas duas da tarde, e deixava-se por lá ficar das cinco ás sete. Era a hora fresca do whisky, da cerveja, da conversa, em cadeirões de verga, á volta das mesas dos quiosques, servidas por criados mouros que tinham vindo de Zamzibar, de cofiós vermelhos e longas cabaias brancas.
Falava-se por xelins, pagava-se em prata inglesa, e as notas do Ultramarino eram de libra. Á noite estava-se mais um bocado na praça, antes de se ir aos cinemas, que eram quase ao lado. Mas os dias grandes eram as quartas e domingos á noite, tocava a banda no coreto, enchiam-se os quiosques, as esplanadas, os bancos verdes de família.
A Praça representava a Província, ali se fazia também a política local, e tinha tanta fama em Lisboa a sua rebeldia, que se auscultava a opinião de Moçambique perguntando o que se dizia na Praça Sete de Março ...











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A Rua Araújo – Parte II

Rua Araújo, a famosa rua dos mercadores do século XIX. Nela se instalaram os escritórios das poderosas companhias do mato, importantes firmas estrangeiras de importação, trânsito e armazem, com estâncias alfandegárias no Infulene. Ainda se encontra uma ou outra raríssima casa antiga na forma exactamente primitiva, rés-do-chão com terraço mas, o que predomina são prédios comerciais de pé direito antigo, dois ou três pisos, com varandas armadas em ferro a bor dado aberto, debruadas a rendas. Tornou-se a Delagoa Bay Walt Street, e nela se instalou, em chic e á inglesa, a sua políctica Associação Comercial.
Foi com a descoberta das ninas de ouro no Rand, e a construção da linha férrea para o Transval, que Lourenço Marques foi invadida por gente exótica e estranha, trazida no sonho da aventura. Vieram sírios, libaneses, italianos, ingleses, gregos e judeus e outros de nacionalidade obscura com nomes britânicos, e vieram mulheres de Porto Natal, Pretória e Joanesburgo, cançonetistas, dançarinas, prostitutas, criaturas abandonadas e belas, que se vendiam elas próprias em Leilão, em cima das mesas dos bares, oferecendo-se em finos maillots cor de carne a quem desse mais libras. Leilão de concubinas insubmissas, disputadas.
Mulheres, marítimos dos barcos, pesquisadores de minas, engineers das works que se montoavam na cidade, transformaram depressa a Rua Araújo, á noite, numa pequena rua do Far West, cheia de sallons com bebidas e jogos animados pelas barmaids. Era o juro que a cidade começava a pagar pelo seu progresso.Arquitectonicamente a rua apresenta uma panorâmica bizarra, com caprichos de todas as épocas num recorte acidentado que traduz com fidelidade o cadastro arquitectural das adaptações forçadas na evolução dos tempos.
A Rua Araújo ficou rua de mercadores para sempre, mas é já remota a sua dupla personalidade. Tem pairado sempre na sua vida uma suspenção de clandestinidade em todos os aspectos.
Coma gradual expansão da cidade para fora da linha de defesa, murada para o alto das machambas, criou-se já no planalto, a partir da crista da ravina, fronteira á baixa, o Bairro Alto destinado a ser nova vila. Terrenos aforados e casas cronstuídas com grandes quintais á volta, mudou-se muita gente, até porque a baixa se tornava incómoda e acanhada, invadida de comércios,bars e armazéns. Resolvido o problema dos tyransportes, com os carros eléctricos instituidos em 1904, foi muita gente viver para cima, e em dez anos mais, a cidade, semeada á larga e ao vento, chegava á Maxaque ao Alto Maé, e por este lado começava a transpor a Pinheiro Chagas ( hoje Eduardo Mondlane ).
Foi nesta fase de mudança da vida da cidade que a Rua Araújo se tornou ao anoitecer uma rua discreta e sem vida exterior. De dia era ainda um bulício de charretes, trens, riquexós e galeras puxadas a parelhas, mas á tardinha recolhiam os carros ás cocheiras, fechavam-se os escritórios, animavam-se os quiosques da Praça, e animavam-se os bares e cervejarias que havia pelo caminho. A rua aparentemente morria, e tornava-se misteriosa e interdita, para nascer ao crepúsculo o sortilégio que a animava como um serralho a noite inteira, para lá das portas fechadas e as cortinas corridas que filtravam alegres gargalhadas de mulher, como cristais finos atirados ao lixo da rua, no silêncio da noite ...











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